domingo, 26 de maio de 2013

HISTÓRIA DE VIDA...



Bucari Baldé
chegou duas vezes à Europa e foi expulso. Por isso investiu a vida numa "oficina de bambo" em Santa Luzia, em Bissau, e sonha fazer uma grande exposição de mobiliário em bambu. 
"A Europa só de férias".É sem mágoa que fala das duas tentativas de emigrar, uma para a Bélgica e outra para Portugal, o jovem de 34 anos que há quase 20 trabalha o bambu. "Gosto muito deste trabalho", comentou.

São quatro(
Bucari Baldé incluído), trabalham todos os dias, em cadeiras, mesas, camas, armários ou sofás, das formas e modelos que o cliente queira. Esvanecido o sonho Europa, Bucari quer um dia fazer uma exposição da arte que trabalha, e se possível abrir uma loja.

Clientes não faltam à "oficina de bambo", como diz um letreiro pendurado na parede da barraca onde se guardam os materiais. Porque o trabalho é feito mesmo na rua, à sombra das árvores, que até seria saudável não fosse o constante passar de automóveis.

"O grosso da minha clientela são os estrangeiros mas agora também os guineenses se começam a interessar pelo meu trabalho, os jovens com emprego, aqueles que trabalham nos bancos", conta.

E dos estrangeiros, diz, há os que compram para levar para os seus países, mas também os que compram para mobilar as casas que tenham em Bissau. "Os angolanos (da missão militar) que cá estavam em cada semana compravam dois ou três jogos para levar para a sua terra".

Na oficina fazem "de tudo um pouco". Diz Bucari que antigamente fazia mais estantes mas que agora os pedidos são sobretudo de cadeiras. "Não fiz desde o ano passado mais do que três estantes", diz, enquanto aponta um "jogo de sala de jantar" que pode estar pronto numa semana se se concentrarem os quatro.

O desenho é tirado de revistas ou conforme o pedido do cliente, que "às vezes traz coisas que viu na internet". "Eu faço qualquer trabalho de bambu que quiseres, qualquer, posso fazer uma cama, não há nada que não possa fazer com bambu", garante o jovem, que dá garantia de dois anos para qualquer peça.

Mas a qualidade do trabalho não se compadece com as dificuldades do país. "Dizes um preço a um cliente e ele pede logo para baixares", queixa-se, exemplificando com um jogo de sala de jantar, pelo qual pede 290 euros e que chega a vender por menos 45. Ainda assim, admite: "dá para assegurarmos as nossas vidas".

Mas Bucari Baldé tem outras queixas. O material é comprado na região de Tombali (sul), com cada vara das mais grossas a custar 150 francos (22 cêntimos). E depois paga impostos no transporte para Bissau e na oficina também não falta quem vá cobrar mais dinheiro.

Bucari é da região de Quebo, sul da Guiné-Bissau. Um dia, há 17 anos, viajou para Bissau para tirar o bilhete de identidade e foi ficando pela oficina que na altura era do irmão. Ganhou o gosto pela arte, sonhou com a Europa, acordou à beira da estrada de Santa Luzia e aí voltou a sonhar. Uma exposição e uma loja, que a Europa só se for de férias.

LUSA

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