sexta-feira, 17 de maio de 2013

O FENÓMENO "TALIBÉ"



A UNICEF na Guiné-Bissau manifestou-se hoje preocupada com o fenómeno das crianças talibé, que são levadas para o Senegal e privadas de direitos, considerando esse "tráfico de crianças" como de "dimensões preocupantes".

"Com base em evidências podemos dizer que a exploração em definitivo existe, e quando existe a saída de crianças de forma ilegal para fins de exploração podemos afirmar com toda a certeza que existe o tráfico de crianças", disse aos jornalistas o representante da UNICEF, Abubacar Sultan.

O responsável falava a propósito da primeira conferência regional de Gabu (leste da Guiné-Bissau), que durante dois dias discutiu "a problemática das crianças talibés", numa iniciativa do governo regional e que teve o apoio da UNICEF.

O objetivo do encontro de Gabu foi juntar "os principais atores" regionais e nacionais para "repensar o problema e as suas implicações, e sobretudo encontrar um consenso relativamente a melhores formas de prevenção mas também de atendimento das crianças que já se encontram nessa situação", disse Abubacar Sultan.

Em causa estão crianças guineenses, normalmente de famílias vulneráveis, que são levadas maioritariamente para o Senegal para escolas vocacionadas para o ensino do Corão e que lá são sujeitas "a todo um conjunto de violações dos seus direitos, fundamentalmente o próprio direito à educação, seguindo-se depois violência, abuso, exploração e humilhação", nas palavras do responsável

Essas crianças são por norma forçadas à mendicidade, salientou Abubacar Sultan, frisando que o que preocupa a UNICEF não são as crianças talibé em si, porque se trata de uma questão religiosa e do direito à educação, "mas sim o aproveitamento dessa situação para a exploração das crianças, a sujeição à violência, abusos e privação, no sentido de lhes criar uma personalidade humilde".

Na conferência de Gabu, acrescentou, sentiu-se que os líderes religiosos se pretendem distanciar da prática, embora também se tenha concluído que o fenómeno é grave e tem vindo a ganhar contornos e proporções preocupantes.

O representante da UNICEF disse ser impossível quantificar o número de crianças guineenses que estão no Senegal mas disse que cerca de 30 por cento das crianças que estão nos centros mais precários do Senegal têm origem na Guiné-Bissau. Num estudo de 2007 referia-se existirem 2000 crianças guineenses no Senegal (algumas a partir dos quatro ou cinco anos), mas "há evidências de que esse número tenha crescido", disse.

Abubacar Sultan considerou fundamental suprimir as necessidades de ter educação noutros países e fazer a prevenção de casos de tráfico de crianças. As conclusões da conferência, disse, foram nesse sentido.

Nos compromissos assumidos pelos participantes na conferência de Gabu surge em primeiro lugar na lista de prioridades a necessidade de adotar acordos e parcerias entre o Estado e entidades que trabalham com a criança, no sentido de permitir o acesso à educação institucional e religiosa.

Os participantes, governo, líderes religiosos, agentes de justiça, pais e organizações não-governamentais, comprometeram-se também em promover o recenseamento dos grandes centros de escolas do Corão e escolas madrassas, e criar mecanismos de incentivo às escolas corânicas e madrassas dentro da Guiné-Bissau.

LUSA

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